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Crônicas das coisas


É falta do que fazer

Não me considero uma pessoa intolerante. Muito pelo contrário. Tenho paciência até demais. Mas tem certas coisas que não consigo aguentar. Gente sem serviço é uma delas. No trabalho, sou vítima desse tipo de gente o tempo todo.

Eu não sei o que as pessoas pensam, mas ligar no jornal por qualquer besteira é a coisa mais comum desse mundo. Pedir telefone da rodoviária de Itapecerica da Serra, saber o que significam os mais variados verbetes do Aurélio ou quem foi Getúlio Vargas pra um trabalho de escola do filho e até para saber se vai chover na semana que vem. As pessoas não têm 'setocômetro' e ligam mesmo.

Pior que isso são aqueles que, sem absolutamente nada para fazer no dia, ligam no jornal apenas para papear. Tenho quase certeza de que as pessoas imaginam a redação como um lugar onde a gente senta pra jogar baralho.

... "Então, sabe o que é, moça? (começou a frase com 'então', você pode esquecer, não vai desligar antes de 15 minutos de lenga-lenga). Quando é problema envolvendo o poder público, a ladainha vai longe. E ninguém, absolutamente ninguém, consegue contar simplesmente o problema. Resumir. Falar. Ponto final. Não. É preciso tecer todo o rosário de três dias.

Minha amiga Agatha Urzedo é mais vítima que eu. Editora do caderno Vida, atende os mais variados tipos de loucos, que, sem absolutamente nada para fazer nem ninguém para encher o saco, ligam no jornal para que ela lhes dê a resposta das palavras cruzadas. E, o que é pior: quando as palavras deles não cabem nos quadradinhos, ligam para insultá-la. Já vi a coitada até resolver cruzadinha na hora para se livrar de um chato desses.

Mas nada se compara a receber ligação de colegas de outros departamentos que, sem a menor cerimônia, ligam pelos mais variados motivos (mas geralmente é pra sugerir uma matéria "sensacional", ou "furo", como as pessoas adoram dizer, se apropriando desse nosso batido jargão para se referir a qualquer buraco na rua ou besteira que o valha).

Uma coisa aprendi em 13 anos de jornalismo: qualquer bobagem é furo na opinião das pessoas se for um problema que as envolve. Como resolver esse problema? Sinceramente, não sei. Talvez sendo mal educada e despejando mau humor em quem liga só mesmo para pentelhar. Como eu sou incapaz desse tipo de atitude (nem nos meus piores dias), vou aguentando e fazendo crescer minha gastrite nervosa.

Ou postando aqui, como hoje, minhas perplexidades com a falta do que fazer das pessoas. Com os dias tão repletos de coisas para fazer, não consigo sequer imaginar como é ter tempo livre para perturbar gente que não tem tempo nem para respirar. 



Escrito por Eloisa Morales às 23h48
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