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Sobre plantas e palavras
Não herdei do meu pai o talento para as plantas. Como dizem por aí: em casa de ferreiro, o espeto é de pau. Tivesse eu escolhido a agronomia e seria uma profissional sofrível. Meu lindo pé de manjericão, que chegou a mim como um lindo arbusto, morreu em semanas, tal minha falta de jeito para cuidar dele. A cinerária, comprada (e cultivada) com tanto amor e carinho, logo se mostrou descontente com os cuidados dispensados e também não durou muito. Melhor me conformar. Acho que sou melhor com as palavras. Tudo bem que não brotam da terra, mas da cabeça de alguém (não necessariamente a minha). Com elas tenho mais facilidade. Gosto da lida diária com frases e ideias, embora isso às vezes se torne um tanto penoso. Talvez não por acaso a vida tenha me conduzido a essa saborosa e por vezes ingrata função da edição. Há textos deliciosos de se ler. Outros (a maioria, confesso) desesperadores. Levanto, dou uma voltinha, pego um café. Não tem jeito: é preciso encará-lo. Mais uma vez me conformo: conheço gente que pega textos piores. É de palavras que vivo. Em verso e prosa, tanto faz. Há aquelas que saíram dos outros, mas dizem o que quero dizer. Há mais de um ano tenho tido a sorte de ouvir a música certa no momento certo. Que diz aquilo que preciso ouvir, dizer ou sentir no instante em que o sentimento precisa ser elaborado. Há pouco lutava para conciliar o sono enquanto esse texto teimava em brotar - frase a frase - da cabeça. Melhor não contrariá-lo, pensei. E me levantei para deixá-lo sair. É na forma de imensos textos que ganham a rua minhas angústias. Quando algo cutuca a alma, pego a caneta e escrevo em folhas de caderno tudo que incomoda. Antes tinha o hábito de guardar tais textos. Bobagem. Uma vez escrito, já saiu de mim e o melhor é não remoer - nem cultivar - mágoas e incômodos.
Escrito por Eloisa Morales às 07h26
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